Um ótimo jogo com um ótimo enredo


Acredite ou não, nostalgia pode ser perigosa. Perigosa o suficiente para colocar o mundo inteiro em perigo, conforme a história do clássico da Nintendo The Legend of Zelda: The Wind Waker nos ensina. Em um enredo magnifico, mantendo a tradição de boas e profundas histórias da franquia, nós recebemos um Zelda mais diferente do que nunca, menos maniqueísta do que nunca antes. E se o enredo não for suficiente, nós temos aqui um jogo feito com uma nova técnica gráfica, cell shedding, que inovou a indústria, correndo em contracorrente com os gráficos “realistas” da época. Nintendo conseguiu dar algo novo e fresco ao público, mas respeitando e mantendo a qualidade da franquia.

E o Wind Waker foi relançado no melhor tempo possível. Desaparecendo ao pouco da memória das pessoas devido ao maligno efeito que o tempo faz, a Nintendo relançou o jogo com gráficos HDs (High Definition) no final de 2013, em seu mais potente console até então, o Wii U. Relança-lo foi uma forma de não apenas atualizar os gráficos e melhora-los, como também de apresentar o jogo para uma completa nova geração de gamers que não tinham tido contato com ele no passado.

Nostalgia é um sentimento estranho. Nos faz lembrar do passado, mesmo os momentos ruins ou que simplesmente não queremos relembrar, com uma estranha a inexplicável sensação de saudades. A palavra vem do grego antigo e significa “de volta ao lar” se traduzido livremente, o que explica exatamente o significado dela, já que é uma sensação de resgate de coisas que aconteceram no passado, normalmente um sentimento misturado com melancholia. Mas sendo uma espécie de saudade, nostalgia pode ser algo perigoso. E é exatamente a partir deste ponto que o enredo de Wind Waker se desenrola.

O enredo desta obra de arte bota o nosso herói, Link, uma vez mais tendo que enfrentar o rei Gerudo Ganondorf, agora ressuscitado em um mundo completamente diferente daquele que ele um dia conheceu e dominou. O que aconteceu foi o seguinte: no último jogo (cronologicamente na timeline), Ocarina of Time, Ganondorf foi selado após sua derrota nas mãos do Herói do Tempo. Com o mundo em paz, Zelda enviou Link de volta ao passado para que ele pudesse viver os sete anos que perdeu enquanto lutava contra o mal, mas eventualmente Ganondorf quebra o seu selo e, sem o Herói do Tempo para impedi-lo uma vez mais, se mostrou invencível. Os habitantes de Hyrule, em desespero, rezaram para os deuses botarem um fim naquilo e as preces foram atendidas. Bem... Mais ou menos. O continente inteiro foi inundado com uma chuva imparável e destruído no processo, deixando nada para Ganondorf dominar além de algumas ilhas. Frustrado o Gerudo entrou em reclusão e eventualmente começou a procurar por garotas nascidas com orelhas pontudas, procurando pela reencarnação de Zelda e por uma forma de completar a Triforce e trazer a glória de volta para o continente. Sua glória, claro.

Mas tudo isso é apenas o início. O jogo em si começa de fato com Link sendo acordado por sua irmã, para sua festa de aniversário. Ele recebe a clássica túnica verde presente em todos os jogos da franquia e vê um pássaro gigante aleatório carregando uma menina, com um barco pirata atrás perseguindo ele. O barco eventualmente acerta um tiro de canhão no pássaro, que deixa a menina cair na ilha do protagonista. E a partir daí a história começa a se desenrolar e o jogo tem seu real início.



E se o jogo lida com a noção de nostalgia nos personagens o tempo todo, o jogador vai provavelmente experienciar esse sentimento por conta própria, especialmente se ele(a) for um jogador old-school de Zelda. Como o original The Legend of Zelda: The Wind Waker foi lançado mais de 10 anos atrás, o remake é uma forma do jogador que jogou o original, provavelmente como uma criança, revisitar o mundo que maravilhou ele uma década atrás, agora com gráficos de última geração. Em paralelo ao próprio enredo, Nintendo fez uma aposta no fator nostalgia para vender esse remake e ajudar o Wii U a aumentar suas vendas. Nostalgia é, sem dúvidas, um sentimento forte. Ganondorf, King Daphne e a maioria dos próprios jogadores podem provar isso.

Gameplay 


O gameplay mantém o clássico esquema dos Zelda’s 3D, não inovando muito, mas ao mesmo tempo mantendo o estilo que tornou a franquia ótima. Nem toda inovação é boa de qualquer forma e se os gráficos em cell-shading foram algo inovador, não dá para dizer o mesmo do gameplay em si. Toda boa decisão que marcou a série depois que entrou na era 3D está em Wind Waker, desde a camêra móvel até o clássico e ótimo Z-Target, uma das grandes invenções da série já que permite o jogador a se focar em vez de ficar dando voltas sem ideia de onde o inimigo está. Nintendo adicionou algo completamente novo, o quick-time event onde você pode normalmente finalizar inimigos normais apenas pressionando um botão (que aparece na tela) no momento certo. Isso torna o sistema de combate mais dinâmico, mas ao mesmo tempo me fez ficar um pouco cansado no final do jogo, já que pode ficar um pouco repetitivo.

Para aqueles que querem escapar do jeito tradicional de combate de espadas, existem diversos itens para serem usados, como em qualquer Zelda, mas a maioria deles é inútil em alguns momentos. A formula de encontrar os itens continua a mesma, já que estão sempre em uma dungeon e você provavelmente vai precisar usa-lo para terminar esse mesmo templo. Os templos precisam ser comentados a parte também. O jogador enfrente cerca de seis ou sete dungeons até o fim do jogo e cada uma é mais criativa e bela do que anterior. Algumas das melhores dungeons de qualquer jogo de Zelda estão concentradas nessa pérola. Os bosses também são tão divertidos quanto o resto do jogo, especialmente a batalha final contra Ganondorf, com um visual e experiência de tirar o folego. Você quase se sente triste quando finalmente enfia a espada na cabeça do antagonista, triste por não ter mais tempo para lutar nessa maravilhosa batalha final.

Existe, entretanto, um pequeno problema (que eu particularmente não me importei, mas que as pessoas reclamaram bastante quando o jogo foi lançado). Assim como a versão original do jogo, Wind Waker tem um oceano praticamente infinito. O mapa é tão gigante e o jogador passa tanto tempo por ele que as pessoas começaram a fazer piada dizendo que “existe um pouco de Zelda no seu jogo de simulação de navegação”. Isso é melhorado um pouco no remake, já que pode-se obter a Swift Sail bem cedo no jogo, uma vela que dobra a velocidade do barco e torna muito mais fácil para Link viajar através da inundada Hyrule. Além disso, em uma determinada parte do jogo o jogador obtém acesso a warp music, que torna muito mais fácil de viajar. Eu pessoalmente não me importei com o tempo de navegação, primeiro porque o jogo é graficamente lindo e depois porque me trouxe uma sensação de conforto, paz e relaxamento enquanto eu navegava sozinho através de um longo oceano em um belo dia virtual.

Os gráficos de Wind Waker representaram uma revolução nos videogames quando foi lançado, como já foi dito. Até este ponto, a indústria estava fascinada com a ideia de realismo e cada companhia tentava criar o jogo mais realístico já lançado. Mas não a Nintendo. Mesmo que a corporação tenha mostrado um tech demo de um Zelda ultra realista na E3 em que revelou o Gamecube, o primeiro jogo da franquia a chegar para o console foi algo completamente novo, com gráficos nunca praticamente vistos antes (o tech demo provavelmente deu origem a Twilight Princess, um Zelda com uma pegada gráfica mais realista). Utilizando uma nova técnica chamada Cell-Shading na qual gráficos parecem que foram tirados de uma pintura artística, já que são super coloridos, brilhantes e “felizes”, The Wind Waker foi uma revolução e uma tentativa de nadar contra a corrente. O jogo recebeu algumas críticas pelo público da época, já que eles esperavam algo ultra realista, mas eventualmente o tempo mostrou que esta era uma pequena pérola a surgir no Gamecube.



A complexidade filosófica de Wind Waker


Assim como a grande maioria dos Zeldas, Wind Waker possui profundos conceitos filosóficos dentro do jogo. Ele pode até parecer como um colorido jogo de criança (e é, de fato, bem colorido) mas fala sobre temas maduros por todo o tempo. E similar com o seu predecessor, Majora’s Mask, morte, apocalipse, arrependimentos e decadência são temas que aparecem no centro da trama. Wind Waker é sobre aceitação, sobre aceitar e deixar o passado para trás. Isso nem sequer citando as teorias da “Jornada do Herói”, criadas pelo antropologista Joseph Campbell.

O enredo de Wind Waker esconde uma história triste e profunda. O rei de Hyrule, por exemplo, não está apenas preso ao passado, como dito antes, mas também vivendo os restos de uma vida cheia de arrependimentos. Quando ele enfrenta o final, ele sente dor e tristeza por desperdiçar sua vida tentando voltar para um tempo que já se foi. Mas ao mesmo tempo finalmente entende que seu tempo já passou e que é hora de Zelda e Link criarem um novo futuro para o continente, agora que o vilão foi derrotado. Sua última frase antes de desaparecer na água retrata isso, ao dizer que “plantou as sementes do futuro”.

É importante ressaltar também que o Ganondorf desse jogo é e não é o mesmo de outros jogos como Ocarina of Time e Twilight Princess. Por isso eu quero dizer que, apesar de tecnicamente ser a mesma pessoa, em The Wind Waker ele é muito mais “humano” do que nos outros jogos. Ele não é o tirano ou o manipulador cruel que é em outras obras da série, ele é apenas um nostalgico levado ao extremo pelo sentiment de fazer algo bom pelo continente que uma vez dominou com punho de ferro. Ele quer sua vida de volta, ele quer seu povo (os Gerudos, que desapareceram sem pistas do que houve com eles) de volta.

Isso torna Wind Waker um jogo não maniqueísta, com uma filosofia que consegue ver mais cores do que apenas preto e branco, mais lados do que “bom ou mau”. O jogo deixa claro que não existe o mau, não existe o bem. Inferno, pela primeira vez em um jogo da Nintendo o protagonista pode muito bem ser o vilão, se você ver as coisas pela visão maquiavélica do Ganondorf. Isso nem falando sobre o rei de Hyrule, um simulacro e espelho vivo do que o reino costumava ser, ligado com o antagonista e com as mesmas motivações entretanto tentando para-lo pelo jogo inteiro. Suas motivações o fizeram tão cego por todo o enredo que ele nem sequer percebeu o quão similar ele era com aquele que supostamente era o vilão. Isso até o final, antes de aceitar sua morte e perecer junto com Ganondorf e o que sobrou do reino.

Existe outra parte curiosa em Wind Waker, um pequeno paradoxo dentro do Monomito (a jornada do herói) e um cujo vou escrever apenas rapidamente porque é tão complexo que merece um artigo completo para si próprio. O antagonista, durante todo o jogo, precisa do protagonista para completar seus planos. Não existe vitória para Ganondorf sem o Link, ele depende do herói (ou mais precisamente, depende da Triforce da coragem) para restaurar o mundo como era antes. Esse pequeno paradoxo do vilão precisando do herói para ter sucesso em seus planos ao mesmo tempo ao mesmo tempo em que a coexistência de ambos é conflituosa, foi explorada em diversos produtos culturais como por exemplo na primeira temporada da série The Flash e em tantos outros lugares.



Um pedaço de arte e cultura


Wind Waker HD não é apenas um dos melhores Zeldas já lançados, mas também um dos melhores jogos já feitos. É uma peça de arte, mais do que qualquer outra na franquia, com um estilo único e uma história que faz o jogador ficar imerso do início ao fim. O revolucionário gráfico de cell-shading representou uma quebra de paradigma na indústria e com esse remake, ficou ainda mais bonito, mais colorido e artístico do que nunca antes. Se quando foi lançado originalmente o jogo enfrentou um pouco de preconceito por causa do seu estilo colorido em detrimento ao estilo realístico que era moda na época, atualmente, depois do cell-shading se tornar mais popular, é um clássico aclamado que finalmente foi revisitado no Wii U.

Nós podemos apenas esperar e torcer que o futuro da franquia nos traga um Zelda tão bom quanto esse. Como Ganondorf diria: aquele vento ainda sopra. E julgando pelo nome do novo Zelda anunciado na E3 desse ano, Breath of the Wild, é bem provável que os bons ventos ainda soprem. Mas isso é algo que apenas confirmaremos em 2017. Até lá, temos diversos jogos da franquia para revisitar, incluindo o clássico Wind Waker.
Facebook
0
Google
 
Top