Desenvolvido pela Deconstructeam e distribuído pela Devolver Digital, o indie The Red Strings Club atinge seu ápice lúdico ao desconstruir a ética social e moral através de nossas próprias escolhas, além de questionar a importância sentimental na nossa formação como indivíduos únicos.


A revolução está apenas começando

Chove na bela cidade pixelada. O cenário cyberpunk é inundado pelas gotas da chuva e notas melancólicas de um piano ao fundo - mas que, em raros momentos, insere traços mais vivos e nos enche de uma esperança misteriosa. Caracterizado como um point and click, gênero consolidado por inúmeros títulos da LucasArts, The Red Strings Club foca na experiência narrativa de seus personagens diferenciados por personalidades únicas e, através de nossas escolhas, o jogo se impõe como uma obra excêntrica repleta de conspirações, descobertas e reviravoltas.

Não tão diferente de outras formas ficcionais lúdicas, o indie da Deconstructeam inicia com a simples função de nos apresentar sua jogabilidade para, aos poucos, nos afundar em sua história. O bar que carrega o título do jogo é o núcleo inicial de The Red Strings Club, onde esbarramos no primeiro encontro entre a androide Akara-184, o barman Donovan e o hacker Brandeis. Em meio às dúvidas iniciais, compreendemos motivações e ambições através dos incontáveis diálogos que compõem a história do game. Juntos, devemos nos infiltrar e cortar os planos da megacorporação Supercontinent pela raíz - afinal, a empresa busca o controle emocional total da sociedade através de implantes tecnológicos capazes de sanar e eliminar depressão, raiva e medo. A revolução está apenas começando.

Mecânica x Narrativa

Cada personagem usufrui de puzzles diferentes para explorar as inúmeras ramificações do game. Donovan, dono do bar, cumpre seu papel ao criar bebidas capazes de aflorar sentimentos e desejos específicos de seus clientes, como depressão, medo e luxúria, a fim de ser agraciado por respostas e informações que o ajudarão destronar a Supercontinent e impedi-la do controle absoluto sobre a sociedade escrava da tecnologia.

Com os drinks prontos, clientes lamentam ou contemplam os sentimentos fundamentais de suas próprias almas e, em troca, recebemos dados para prosseguir nossa jornada.

A androide Akara, cria da Supercontinent, molda e insere implantes para satisfazer necessidades humanas, nos reforçando a importância e o controle da empresa perante a sociedade. Seja um cosplayer que deseja influência em suas redes sociais, ou um empreendedor que necessita de ajuda de potenciais investidores, cada implante visa satisfazer uma necessidade humana - mas esbarra em consequências sentimentais e sociais. Ser influente não necessariamente lhe trará felicidade, uma vez que o ódio na internet pode nascer como consequência de sua influência.

É aqui que The Red Strings Club começa a explorar e questionar a importância sentimental nas mais profundas características humanas. Somos mais do que a simples manifestação dos nossos sentimentos? Até que ponto é justo e ético permitir que a tecnologia controle nossos corações? Cabe a você decidir e criar o que julgar melhor para seus clientes.


Brandeis, o hacker, é o mecanismo perfeito ao acessar memórias e utilizar moduladores de voz para se infiltrar na megacorporação. É ele quem acessa as principais funções administrativas da empresa e também quem manipula outros personagens ao extrair o máximo de informações para atingir o objetivo final de cancelar os planos de controle da Supercontinent.

Mecanicamente, o uso do telefone de Brandeis é o mais simples e fácil, diferente da criação dos moldes de Akara e o preparo dos drinks de Donovan - não se espante se despejar uma garrafa inteira de tequila no balcão do bar enquanto tenta servir um cliente.

The Red Strings Club prefere não se aprofundar nas mecânicas do gênero, como transitar livremente por ambientes ou combinações de itens esdrúxulos, e decide sobreviver às custas de uma jogabilidade simples, mas não mede esforços para nos fixar em sua rica narrativa. Com uma escrita intocável e abundante, ler as linhas de diálogos se torna prazeroso mesmo após horas de jogo.

Ao questionar a ética e moral, o game usa dos sentimentos humanos e sociais para mostrar até que ponto o homem está pronto para brincar de Deus em busca da evolução. A ambição paupável dos personagens é tanto o topo do pedestal, quanto o calcanhar de Aquiles de um projeto em busca do modelo ideal de uma sociedade distópica.


Uma Experiência

Como sugerido de forma coesa em sua descrição oficial, "The Red Strings Club é uma experiência". Refletimos sobre nossas próprias convicções quando o jogo coloca o certo e o errado em uma balança - papel executado pelo jogador - e questionamos se os planos da megacorporação são, de fato, tão malignos. Nosso conflito é interno e nós decidimos, através dos diálogos, o que julgamos ser o melhor para nós e os personagens até os desfechos finais.

O game é um reflexo da utopia pessoal de seus personagens - e também a dos jogadores - quando sugere que a vida perfeita é relativa e só é atingida quando inundada de felicidade, mas também reforça que a infelicidade e tristeza podem ser combustíveis seja para a evolução, seja para a criação. A infelicidade faz parte da condição humana, não é mesmo?

Não se preocupe com pontuações, checkpoints, batalhas ou gameovers. O que está em jogo no game é o seu interesse pela descoberta, sua vontade em mergulhar na rica história que passa diante de seus olhos. Questione-se quando necessário, tire suas próprias conclusões e haja de acordo com suas perspectivas. Dialogar é essencial.

A temática cyberpunk é outro fator que eleva a experiência que o jogo propõe. O avanço tecnológico influencia toda a prática investigativa e filosófica de The Red Strings Club. Seu gracejo é palpável do início ao fim por meio do visual pixelado desenvolvido pelo estúdio independente espanhol, assim como toda sua trilha sonora atmosférica. Tudo se encaixa no game, desde o conceito até os créditos finais.

Veredito

Como qualquer outro point and click, The Red Strings Club não exige habilidades complexas para ser finalizado - embora seja complicado servir drinks ou moldar implantes com o mouse em alguns momentos. Sua dificuldade é imposta através de escolhas morais que partem de quem o joga. O certo e o errado não irão te penalizar - muito menos julgar. Cabe a você escolher o que acredita ser justo para as questões impostas pelo game e o quanto você está interessado em buscar por informações.

A fantástica trilha sonora dá mãos ao belo visual pixelado em 2D e a ambientação de The Red Strings Club se encaixa de forma perfeita com a proposta narrativa da Deconstructeam. A aventura coberta por mistérios, descobertas e tensão é essencial para jogadores que contemplam games mais preocupados com narrativas a tiros e explosões. A sensação de perigo e ameaças está por todos os cantos. Solucione os mistérios de The Red Strings Club e seja agraciado por uma reviravolta digna de uma obra ficcional marcante. Não se espante caso queira terminar o jogo mais de uma vez, já que as ramificações de sua história sugerem diferentes óticas mesmo com uma essência singular.

Visual 10/10
Jogabilidade 9/10
História 10/10
Carisma 10/10
Trilha sonora 10/10

Com legendas em português, The Red Strings Club está disponível para PC, Mac e Linux nos nossos parceiros do GOG.com.

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