Quando eu era pequeno, já gostava
muito de ler histórias. Aliás, desde antes de ler, já tentava me
aventurar com HQs e compreender tudo o que se passava através das
imagens, mas também sempre pedia que alguém pudesse ler para mim.
Se a memória não me falha, tive a oportunidade de ganhar o meu
primeiro videogame também antes que eu tivesse aprendido a ler –
com isso sim, era muito mais fácil de me virar.
videogame ser um meio de contar uma história, e continuei assim por
mais alguns anos. Por exemplo, já um pouco mais crescido, tive
contato com jogos que a Disney lançou para o SNES: Pinóquio,
Aladdin, O Rei Leão, etc. Eu conhecia as histórias desse jogos, e
compreendia que cada fase deles representava uma parte da história,
mas não considerava que a história estivesse ali sendo realmente contada.
época das primeiras gerações de consoles, não havia a preocupação
de desenvolver uma boa narrativa. Afinal, na cabeça dos
desenvolvedores, produtores e do próprio público gamer na época,
um jogo era meramente para ser jogado. No máximo havia uma
contextualização do que estava acontecendo e posteriormente
informações extras passaram a vir nos manuais dos jogos, que
contavam coisas sobre aquele mundo e explicavam o porquê do
conflito. A equipe de criação concentrava os esforços em desenhar
os níveis, pensar em coisas que facilitariam e dificultariam a vida
do jogador, criar uma estética com as limitações gráficas impostas e por aí
vai.
e a mais notável eram os jogos baseados em texto, que já apareciam
na década de 1970. Não requeriam muito do hardware, descreviam
diversos cenários e situações e funcionavam mais ou menos como um
livro interativo com múltiplas possibilidades… bem, na verdade
ainda funcionam, quem tiver curiosidade poderá encontrar alguns pela
internet. Todavia, alguns jogos de aventura começaram a aparecer um
pouco mais ricos do que o normal e popularizaram-se também jogos de
gênero RPG, que possuem um foco maior no enredo que outros grandes
jogos de sucesso anteriores à 3ª geração, como Tetris, Donkey
Kong, Pong, Space Invaders, Pac-Man e etc.
Os desenvolvedores começaram a
trabalhar mais pesado então na narrativa dos jogos. Em COMO contar
uma história, não apenas em “qual vai ser a história” ou na
síntese daquele mundo. Minha ficha começou a cair quando eu tinha
por volta de 11 anos. Eu tive um SNES, mas nunca havia jogado Chrono
Trigger e encontrei uma rom do jogo em português. Não lembro o que
me fez baixar, já que não conhecia nada do jogo, e ninguém que eu
conhecia tinha jogado ainda. Eu não percebi de cara, mas hoje olhando
pra trás foi ali que eu vi que jogos podiam ser muito mais do que eu
achava que eles eram. Aquilo era não só bom na jogabilidade, mas
era uma obra-prima em enredo, narrativa, ambientação visual e
sonora… acho que é um dos raros exemplos de jogos já produzidos
em que eu daria um 10 numa resenha. Talvez ter compreendido
totalmente todo o texto de um jogo como aquele pela primeira vez
tenha contribuído para isso.
experimentando vários tipos de jogos, sendo que para alguns a
narrativa era um elemento essencial e para outros não. Enquanto que
em alguns uma boa narrativa não fazia falta, havia aqueles em que
ela fazia e outros em que a narrativa passou a impressão de ser
considero erroneamente o foco, enquanto outros aspectos mais
relevantes para aquele tipo ou proposta de jogo foram deixados de
lado.
pela ideia de que videogames são um ótimo meio de contar uma
história. Bom, existem questões de ordem teórica sobre isso, uma
discussão de que videogames não contam histórias, apenas fornecem
o meio para que o jogador construa a sua e etc… mas teorias à
parte, isso é algo que pode ser feito mesmo em jogos em que não há
muita preocupação em desenvolver o enredo. Posso jogar Frogger e
ver ali uma aventura de sapos em sua épica jornada de volta para
casa, tudo com direito a momentos de muita tensão.
fazem isso com qualidade, de uma forma que case muito bem com a
proposta do jogo, acabam por fornecer um outro tipo de experiência
para o usuário. Hoje em dia já se produzem muitos jogos assim em
gêneros que, para quem não é gamer, deve soar estranho, como jogos
de luta ou shooters, o que ajuda a demonstrar o quanto as técnicas
de produção de narrativa em videogame foram se aperfeiçoando com o
tempo, mas mesmo assim ainda precisam (e vão) evoluir muito mais. Um
bom motivo pra isso é que existe uma certa tendência em vários
jogos de usar e abusar de cinematics. Nada contra, eu pessoalmente
gosto bastante de ver cinematics e se fosse um desenvolvedor também
gostaria de fazer bom uso delas, mas tornou-se uma saída comum em
diversas situações, como animações no maior estilo espetacular
hollywoodiano para introduzir uma sequência de ação do jogo, com
barulhos e explosões ao fundo. Acaba se tornando como um filme com
roteiro clichê: é preciso que tenha algo a mais que o roteiro para
não se tornar apenas mais um.
se limitar e explorar qualquer tipo de jogo. No caso de jogos focados
em narrativa, mesmo que a produção dele tenha pecado nesse
requisito, ele pode ainda valer a pena ser jogado se for bem-sucedido
em outros elementos. Mas, particularmente, os jogos que têm um bom
enredo e que esse enredo é bem contado e bem jogador pelo jogador…
bem, esses são jogos incríveis para qualquer fã de boas histórias.
Gamers ou não. É o que faz pessoas chorarem, se apegarem ao
personagem a um personagem ao ponto de ficarem indignadas se morrerem
no meio do jogo de forma indefinida.
Essa evolução talvez tenha feito
esses jogos se tornarem mais do que jogos no sentido mais básico da
palavra. Muitas vezes, quando jogamos, não estamos meramente fazendo
ações virtuais, mas também estamos jogando um drama, um romance,
desvendando um mistério, nos engajando em algum revanchismo,
salvando o mundo e tantas outras coisas. Essa mesma evolução não
se trata apenas de contar histórias, mas de como contá-las.
profissionais especializados apenas para para roteirizar os jogos,
escrever os diálogos e etc. E, mesmo assim, ainda há muito
potencial para ser explorado. Acredito que no futuro poderemos
explorar até mesmo técnicas de narrativa novas nos jogos, e que
ainda iremos nos surpreender muito. Resta esperar para ver o que os
desenvolvedores trarão de novidade, e a tendência sugere que as
inovações virão nos jogos indie. Mas isso é assunto para um outro
post.
E você, o que acha? Prefere jogos com enredos bem explorados ou não faz questão disso? Sente diferença entre jogos muito antigos e os atuais nesse quesito? E que tipo de assunto gostaria de ver abordado no próximo post dessa coluna? Com certeza há muita coisa que deixei de falar sobre esse assunto, então gostaria que eu voltasse a ele no futuro? Deixe seu comentário!




