Falamos uma outra vez aqui no Papo de Gamer sobre a (falta) de lógica nas premissas de alguns games, e como isso não importa tanto uma vez que a diversão – o mote principal de qualquer game – seja garantida. Mas isso para nós, jogadores. E para quem produz estes jogos, eles não devem mesmo fazer sentido?
Na verdade, devem, somos nós que não damos conta, e é sobre isso que falaremos por aqui hoje.
Já estudo algum sobre roteirização e construção de personagens, além de ter jogado RPG de mesa por uma boa parte da infância e da adolescência. E em ambos os casos, o mundo ao redor dos personagens é tão importante quanto as figuras de destaque que tanto adoramos. E para que estes personagens funcionem, o cenário em que ele passa deve ser construído com a mesma importância e detalhismo.
A Premissa Básica
Criar uma história, independente de ser em um game ou não, precisa de uma premissa básica na qual seus criadores possam se guiar na construção de todos os detalhes importantes para ela. E os gêneros, tons e temas ajudam a conceber um cenário propício para sua história.
O gênero é o mais simples de se pensar numa história. A quantidade de exemplos vistos nos games (ação, plataforma, RPG, survival horror…), no cinema e na literatura (comédia, drama, documentário, aventura, ficção científica…) são suficientes para oferecer os primeiros alicerces para criação de uma história. Seus detalhes em relação a personagens, elementos visuais e auditivos, e clichês oferecem a direção em conjunto com a premissa.
Já os temas e os tons são os elementos que oferecerão os diferenciais necessários para a criação de uma história. Os temas estão mais relacionados aos assuntos a serem tratados na trama, que podem ser desde os mais simples (amizade, lealdade, esperança, heroísmo, diversão…) aos mais complexos (extremismos, politicagem, religião, lutas de classes…), enquanto os tons auxiliam na maturidade e na profundidade com as quais estes temas serão tratados.
E o que isso tudo tem a ver com os games?
Criando Referências Cognitivas
Uma vez que se tenha definido as características mencionadas acima, é o momento da construção do cenário em si, com todos os detalhes que ele merece. E para os games, significa trazer características nas quais o jogador realmente se sinta naquele mundo, por mais estranho que ele possa parecer.
Vejamos por exemplo o primeiro Metroid. A ficção científica protagonizada pela caçadora de recompensas Samus Aran tem uma premissa bem simples: invadir seu planeta natal e exterminar o vírus metroid e sua criadora, a Mother Brain. No caminho topamos com a fauna selvagem do planeta, a misteriosa relação da protagonista com o antigo povo do planeta, os Shozo, sua rivalidade com outros caçadores, como o já bem conhecido Ridley, encerrando na sempre relembrada luta final contra Mother Brain.
Sem entrarmos nos aspectos narrativos, somente a ambientação alienígena de Metroid, com seus perigos naturais e mistérios quanto ao planeta, já falam muito sobre o tema e o tom do game: a luta pela sobrevivência, o risco de encarar o desconhecido, entre outros assuntos. A série Prime, que leva a jogabilidade para primeira pessoa, deixa isso ainda mais claro.
Fazendo um pequeno paralelo, não é difícil encontrarmos relatos similares entre exploradores e desbravadores que encararam regiões inexploradas, ou encararam experiências únicas para eles. Esse pequeno gosto é apresentando unicamente pelo ambiente em si, o que faz a protagonista ser ainda mais cativante mesmo sem dizer uma palavra.
E se você não notou as referências utilizadas para a construção do universo seco da série Metroid, saiba que ele guarda grandes homenagens e referências a um dos clássicos da Ficção Científica. Criar essa relação sutil é o que faz uma ambientação ser tão aclamada.
Meus Cenários Favoritos
E é claro que não poderia faltar uma pequena lista de cenários que acredito terem me chamado tanto a atenção quanto a história, em que cada detalhe encontrado aumentam ainda mais a imersão e a riqueza com as quais foram concebidos. E como de costume, não deixe de comentar abaixo quais cenários são os mais impactantes para você.
Final Fantasy – Se tem uma coisa que os games desta série conseguem atrair com facilidade são suas ambientações. Mesmo nos episódios menos adorados da franquia, seus detalhes nos nomes dos personagens, nos nomes e detalhes das cidades, referências a figuras e marcos históricos, e principalmente às inúmeras mitologias são um exercício criativo muito intenso. Cito especialmente os Final Fantasy IV (meu xodó) e VI, cujas histórias e ambientações conseguem passar desde elementos bíblicos a passagens das histórias de Shakespeare e até mesmo Star Wars!
Mario Brios. – Sabe toda aquela bizarrice com cogumelos, canos que levam a outros mundos, personagens fofinhos com chapéus de cogumelos e dinossauros que transformam comida em ovo num piscar de olhos? Como eles fazem tanto sentido e conseguem ser cativantes? Honestamente, não sei, mas se pararmos para pensar que animações como Hora da Aventura e Apenas um Show são tão malucas quanto, e fazem um baita sucesso, o mundo do Mario, Bowser, Peach e Toad não é tão estranho assim.
Rock n’ Roll Racing – Como não amar a mistura de Rock, Sci-Fi pulp no melhor estilo Flash Gordon, filmes de brutucus (de onde você acha que veio aquele personagem Braddock? Uma dica: Roundhouse Kick) e corridas de destruição que fariam um fã de Speed Racer pular da cadeira? A Blizzard já misturava bem suas referências desde os primórdios.
Megaman X – A série mais “madura” do azulão não surpreendia tanto pela ambientação em si, nas quais os fãs de Megaman já estavam acostumados desde os tempos do Nintendo, mas pela atmosfera que trazia. Apesar de conhecermos todos aqueles ambientes, é nítido que não encaramos mais apenas um cientista louco ou meros objetivos de dominação global.
Okami – Sim, eu sei que ele saiu originalmente para PS2. Mas seu relançamento para Nintendo Wii me permite colocá-lo na lista sem remorso =). Okami é um daqueles games que coloca a ambientação num nível bem acima do “local para o personagem explorar”. O nível de interação com o cenário através dos recursos dentro e fora do jogo tornam a narrativa ainda mais imersiva, e a arte mostra que os games são de fato uma nova forma de arte.








